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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Um bar, um continente


Foto: Fabio Pontes
Tomando uma cerveja em um bar no aconchegante centro antigo de Manaus, tive a alegria de dividir minha mesa (afinal, todas as poucas mesas já estavam ocupadas) com o venezuelano Júlio Valdez, de 42 anos. Ele estava acompanhado de seu cicerone brasileiro Adalberto Souza, de 65 anos. Ali, naquela mesa, estavam três migrantes latino-americanos.

Com sua barba e cabelo brancos, Adalberto é um baiano que chegou a Manaus na década de 1970, quando a cidade tinha 800 mil habitantes, recorda ele. Hoje com dois milhões de pessoas, Manaus é conhecida como a metrópole da Amazônia, ou a metrópole da floresta.

Antes de desembarcar em Manaus, Adalberto –como a grande maioria dos Nordestinos – tentou a vida na grande São Paulo. Por lá ficou um ano e decidiu vir para o Norte. “Sou manauara desde 1972”, responde-me quando pergunto de onde era. Já o venezuelano Júlio ainda não desembarcou no Brasil para tentar a vida de vez –está apenas sondando.

Antes de Manaus passou por Boa Vista, a capital de Roraima. Disse ter ficado impressionado com a organização e a limpeza da cidade, ante o aspecto sujo do centro velho de Manaus, algo bastante típico das grandes cidades brasileiras. Outro migrante era eu, que desembarcou na capital amazonense em busca de novas perspectivas profissionais, deixando Rio Branco por um tempo.

Na mesa, o assunto não poderia ser outro: politica e economia. Afinal, Brasil e Venezuela passam por crises semelhantes nestes dois campos. O Brasil está perto de ver sua presidente deposta pelo Congresso Nacional; Nicolas Maduro também pode seguir o mesmo destino já que a oposição saiu com vitória esmagadora para a Assembleia Nacional, o que também pode desencadear num eventual impeachment do sucessor de Hugo Chávez.

Na economia a inflação corrói o poder de compra dos brasileiros e dos venezuelanos. Para eles a situação é bem mais crítica. “Falta de tudo em nosso país, desde o papel higiênico ao feijão”, comenta ele. Ao falar do feijão, seus olhos brilham ao se lembrar de estar comendo “frijoles” nos dias que tem passado no Brasil.

“Aqui vocês não passam por isso. Há de tudo no mercado, podem comprar o que quiser.” O ápice da conversa se deu quando Júlio Valdez me deu de presente duas notas da moeda de seu país, uma de cinquenta e outra de vinte, totalizando setenta bolívares. Fiquei impressionado com aquela atitude.

O espanto maior veio quando, usando da calculadora de seu celular, converteu cinquenta bolívares para o real: R$ 0,85. Não errei, meu caro leitor. Com oitenta e cinco centavos de real você terá uma nota de cinquenta bolívares. Depois entendi a razão de ele ter me dado aquele dinheiro com total desprendimento: aquelas notas simplesmente não valem nada.

Pelas cidades da Venezuela, é comum os cidadãos andaram com bolos e mais bolos de cédulas de bolívares. “Nossa situação está bem mais crítica do que em Cuba”, diz. Pergunto como está a vida dos mais pobres por lá: “Pior do que 1998”, ano da chegada de Chávez ao poder. Casado e pai de uma filha, Júlio Valdez pretende voltar ao Brasil em fevereiro –talvez agora para ficar de vez e tentar a vida.

Jamais poderia imaginar que sentar naquele bar central de Manaus, com as bandeiras de Portugal e do Vasco ao fundo, poderia render uma conversa tão proveitosa. E a conclusão que tirei é a seguinte: somos todos latino-americanos e enfrentamos os mesmos problemas. O atual momento do Brasil, os resultados das urnas na Venezuela e na Argentina revelam que mudanças estão a caminho.

As sociedades latino-americanas demonstram estar cansadas do populismo “bolivariano”; a esquerda teve sua chance, demonstrou não ter aproveitado. E tudo indica que o “capitalismo selvagem” voltará com tudo.

Viva Simón Bolívar, o libertador da América

Um comentário:

  1. Como não valem nada, 100 bolívares dá R$ 1,70, uma boa dose de pinga

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